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Foto: Elvis Palma | A tradição da pesca artesanal (Molhes da Barra)

30 de junho de 2015

22 - No topo do morro: a Festa e a Igreja do Rosário

Na Ponta das Pedras, em 1900. (foto enviada gentilmente ao blog por Fabíola Mathias Tavares, da página Tubarão Suas Memórias)
Quem observar as primeiras fotos feitas aqui em Laguna, entre 1897 e os anos 20, irá ver que no alto do hoje Largo do Rosário, havia um edifício que para muitos merecia ser derrubado por apresentar riscos à população que morava no seu entorno, para outros era sinônimo de fé. Na história de hoje: a muito desconhecida Igreja de Nossa Senhora do Rosário.

A Igreja e a Irmandade

“Numa eminência, no extremo da pequena cidade, eleva-se para o céu, uma igreja meio construída”, assim descreveu o francês Robert Avé-Lalleman, quando esteve numa viagem pelas províncias sulistas do então Império do Brasil em 1858.

A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, já existia em 1811, neste ano aparece o relato do padre Agostinho José Mendes dos Reis, que teve contato com o compromisso dos Irmãos do Rosário. Em 1836, com esforço realizam a primeira festividade em honra à sua padroeira e quatro anos depois, decidem pela construção de igreja. A Irmandade era composta por muitos pretos escravizados, que se distinguiam entre: “da Costa”, originários da África, e “crioulos”, estes afrodescendentes nascidos aqui no Brasil.

Na época da primeira festa, estes eram os irmãos de mesa, conforme ata transcrita por Saul Ulysséa:

“Corte Real”
Irmãos de Mesa
Irmãs de Mesa
Rei Francisco Vaga (preto forro)
Ambrozio (esc. de Anna Maria de Jesus)
Francisca (esc. de Francisco Ferreira)
Rainha Josefa (esc. de José Lourenço)
Antônio (esc. de Franco dos Santos)
Maria (esc. de Manoel Francisco Teixeira)
Juíz Matheus (preto forro)
Antônio (esc. de Maria de Tal)
Rita (esc. de José Pinto de Magalhães)
Juíza da Vara, Rita (esc. de Anna Joaquina)
Gregório (esc. de Polucena de Tal)
Rosa Maria de Jesus (preta forra)
Juíza de Ramalhete, Alexandra (esc. de Fidelis José de Fraga)
Matheus (esc. de José Prudêncio dos Reis)
Supriana (esc. de Ilena da Silva)
Capitão-mor, Domingos (esc. de Floriano José de Andrada
Procuradores das Caixas
Assinam a ata os irmãos do Rosário e ainda
Procurador-Gerral, Bom.º Teixeira Machado
Areias – Manuel (esc. de Florentino Quaresma)
Fidelis José Fraga (tesoureiro)
20º Bº, Joaquim (esc. de Angelica Maria)
Pescaria Brava – Theodozio (esc. de Antônio Machado)
Manoel dos Santos Simas (escrivão)
Mordomo, Paulo (esc. de José Franço Coelho
Tubarão – Joaquim (esc. de José Alves Lourenço)
José Carlos de Cunha (escrivão que fez a ata)
Andador João (esc. de Manoel dos Santos Limas

Vigário Francisco Vilela (Matriz)
Fonte: Ulysséa, Saul in O Albor, 1939               Quadro elaborado pelo autor do blog                       Grafia de algumas palavras foram atualizadas

A Irmandade, tinha a posse de um terreno - cuja escritura data de 1828 - e, com muito sacrifício começaram a erguer o seu templo, em 1845, lá no topo do então Morro do Potreiro. Como a maioria dos devotos e Irmãos eram escravos, cuja pobreza os impedia de contribuir financeiramente com as obras, eles colaboravam com esforços físicos, levando os materiais de construção até o alto do morro, trabalho este que se estendia durante toda a noite, uma vez que, de dia trabalhavam para os seus senhores.
Panorâmica de Laguna, note a estrutura mais alta é a igreja do Rosário, foto datada dos anos 10. (Acervo Dalmo Mendes Faísca)
A construção seguiu a passos lentos, por volta de 1870, é adquirida pela irmandade uma apólice com o legado de dona Luíza Joaquina de Jesus, e que com mais algumas esmolas, pode ser construída a cobertura da igreja, que chegava ao seu respaldo. Dez anos depois, para a construção do altar-mor é contratado o marceneiro Gustavo Scholts, é preciso registrar que havia dois altares no seu interior, sendo um para a Nossa Senhora do Rosário, cuidada pelos pretos, e outra para Nossa Senhora dos Pardos, possivelmente sob a responsabilidade dos pardos, conforme Thiago Sayão.
Esta talvez seja a mais antiga fotografia de Laguna, note bem lá no fundo, a igreja aparece (Acervo de Dalmo Mendes Faísca)
Por volta de 1879, começa-se a tradição de iniciar a partir da Igreja do Rosário, a procissão do Senhor Bom Jesus dos Passos, e também a de outras imagens, segundo nota encontrada n’A Verdade, do ano seguinte, foi grande o “concurso de pessoas que assitio ao acto [sic]”.

Foi nos tempos da Lei Áurea, em 1888, que os jornais locais iniciaram campanha para a demolição da igreja, uma vez que apresentava riscos à população e que poderia ruir, na época não tiveram tanto sucesso, mas seus ecos ultrapassaram décadas, e chegaram ao século XX, onde cada vez mais artigos saíam na mídia impressa.

A capela. (acervo de Antônio C. Marega)
Quando esteve em visita à Comarca de Laguna, no ano de 1892, o padre Carlos José Leopoldo Boegershausen, já prevenia os Irmãos do risco que a estrutura sofria por conta da erosão no lado do sul do Morro – agora já conhecido por Rosário –, e ainda confirmava que a igreja estava apta para o exercício de cultos religiosos. 

Em carta escrita talvez por algum Irmão, publicado numa edição de 1905, d’O Albor, acha-se a informação de que eles tinham pleno conhecimento dos riscos da estrutura, como o teto que poderia ruir, informavam ali que não conseguiram reunir os oito contos de réis, necessários para a construção de uma muralha em torno da igreja, e ainda apresentavam a sugestão, resgatando a ideia de se criar uma capela no Magalhães para Nossa Senhora dos Navegantes, onde poderia ser colocado um altar protegido por Nossa Senhora do Rosário. Nenhuma das obras foram feitas, mas, os devotos da protetora dos mares ganharam o seu templo em 1912.

No mesmo jornal O Albor, no distante ano de 1921, encontra-se a seguinte nota que atesta ainda mais a chama do movimento pela derrubada da Igreja:
Qualquer forasteiro que aporte à Laguna, quer por via férrea, quer por marítima, tem logo o seu espírito de observador solicitado por uma construção, que pela elevada posição topográfica em que se acha, e pelo simbolismo religioso que reflete, deveria aparecer com outro aspecto e presença; e, não com o da franca ruína e verdadeiro abandono que demonstra. Referimo-nos ao pequeno templo católico, denominado Igreja do Rosário.
As campanhas para a demolição do prédio tiveram 'sucesso', quando o mesmo foi posto abaixo, porém o ano, acabou sendo esquecido das páginas históricas. O escritor de Coisas Velhas, o saudoso historiador Saul Ulysséa, ao falar sobre o templo diz que ele foi demolido em 1933, mas quando o seu livro era apenas uma coluna no jornal O Albor, o ano vinha acompanhado de um ponto de interrogação, aliás, em nenhum periódico lagunense da época se encontra citação do ato. A pergunta que fica é: Quando a Igreja foi derrubada?. 

Mas espertos foram os negros lagunenses, perderam a sua Igreja que, podemos dizer se aproximava do céu pela sua posição de destaque. Sayão, defende a ideia de que a derrubada do templo talvez fosse uma estratégia da “elite” para expulsar do centro da cidade, aqueles que não se enquadravam aos grupos sociais mais importantes, porém, tudo foi em vão, os que eram excluídos constituíram ou fizeram parte de dois grandes clubes: a Soc. Rec. União Operária e o Clube Literário Cruz e Souza, que se localizavam – olhem só – no centro.

Vale dizer que se apagou qualquer resquício de alguma possível ruína da antiga Igreja, com tantas transformações que a Laguna foi sofrendo, o terreno onde ela se localizava foi rebaixado e renomeado, passou a ser Largo do Rosário. 

A Festa

O primeiro registro da realização da festa data de dezembro de 1836, sendo oficiada pelo vigário Francisco Vilela (morto durante a revolta farroupilha, em 1839). Havia logo depois da parte religiosa, uma festividade em que – conforme diz Nail Ulysséa – era possível se sentir durante todo o ritual, o sabor das coisas africanas.

Durante a festa, era sempre comum apresentar-se o rei – que vinha vestido a caráter, com direito a uma coroa – e ainda a rainha – com enfeites extravagantes sob a cabeça em cores berrantes –, a corte real ainda vinha acompanhada pelos seus vassalos que usavam vestimentas espalhafatosas. Nesses trajes descomunais eles assistiam à missa na Matriz, seguiam em procissão, e quando encerrada toda a religiosidade, se entregavam nas danças e ritos de suas terras natais, transformavam aquele pedaço de chão numa extensão da África, indo sempre até altas horas da madrugada. O primeiro a ocupar o trono real, foi o preto forro Francisco Vaga, que vinha acompanhado de S.M a rainha Josefa, esta escrava de José Lourenço.

Um dia antes a santa era levada à igreja, seu entorno era decorado com festões de mato, e bandeirolas de papel de diversas cores, como conta Saul Ulysséa. Durante a festividade, era comum a utilização de muitas bombas e fogos de artifício, usavam até um antigo canhão da Revolução Farroupilha, que fora levado daqui para Tubarão, quando da construção de um monumento à Anita.

A Imagem

Após a demolição da igreja, a imagem de Nossa Senhora do Rosário, teria sido levada para os forros da Matriz, ficando lá, até ser restaurada pelo Mestre João Rodrigues – responsável pela restauração nos anos 70, de nossa matriz – que, conforme registra Alice Bertoli, achou um recorte de jornal datado de 1862, anunciando a venda de escravos.

Também há um burburinho que corre por alguns locais da nossa terrinha, onde se afirma que a imagem e demais componentes do espólio da Irmandade do Rosário, foram levados para a igreja de Nossa Senhora Auxiliadora, no Portinho, quando de sua construção nos anos 40, será verdade? Ou é mais uma lenda lagunense? Vou deixar a resposta em aberto. 

Agradecimento

À Thiago Sayão - que vem desenvolvendo um excelente trabalho de pesquisa sobre o tema -, por disponibilizar alguns minutos de seu tempo para trocar algumas ideias que foram de muita ajuda na hora em que esta história ia ganhando forma. Ah! e se puder não deixe de visitar o Laguna Documenta, escrito por ele, onde estarão disponibilizados os resultados e caminhos de sua pesquisa.

Referências Bibliográficas


Livros
ARNS, Alice Bertoli, Uma esquecida epopeia de bandeirantes e franciscanos. 1ª Edição. Curitiba, 1975.
ILYSSÉA, Nail. Três séculos na Matriz de Santo Antônio dos Anjos da Laguna. In:Santo Antônio dos Anjos da Laguna: seus valores históricos e humanos. Publicação comemorativa da passagem do seu tricentenário de fundação. Florianópolis : IOESC, 1976. 
ULYSSÉA, Saul. Coisas Velhas. Laguna, 1946


Trabalhos acadêmicos
SAYÃO, Thiago Juliano. Negras paisagens. Primeiras leituras sobre a demolição e o apagamento da igreja da Irmandade do Rosário de Laguna, SC., 2013.


Sites e Blogs
SAYÃO, Thiago Juliano. Igreja do Rosário. Laguna Documenta.

Periódicos
Jornal A ACTUALIDADE (Laguna: Gabinete Typ. Sul do Estado)
Capella do Rosário. O Albor. Edição 04. Anno 01. 19 de dezembro de 1905.

Jornal A IDÉA (Laguna: Typographia d'O ALBOR)
Capella do Rosário. O Albor. Edição 04. Anno 01. 19 de dezembro de 1905.

Jornal O ALBOR (Laguna: Typographia d'O ALBOR)
Capella do Rozário. O Albor. Edição 141. Anno IV. 25 de junho de 1950.
ULYSSÉA, Saul. Coisas Velhas: a Capella do Rosário. Edição 1799. Ano XXXVIII. 11 de junho de 1939.

Revista Brasileira de História
SAYÃO, Thiago. Título não informado. (no prelo)

3 comentários:

  1. Agradeço a gentil referência, Luís Cláudio Abreu. Importante saber que as pesquisas que fiz contribuíram de alguma forma para dar visibilidade aos afrodescendentes, escravizados, livres e libertos, que se reuniram em uma Irmandade e construíram a Igreja de Nossa Senhora do Rosário (dos Pretos). Também é importante saber que novas leituras sobre o passado de Laguna estão sendo feitas e divulgadas. Aliás, é bom lembrar, que a elaboração de leitura crítica do passado é uma função social da História, que também deve contribuir para alargar os horizontes de pensamento e imaginação dos homens e mulheres no tempo presente, assim como ensinar a ler o tempo pretérito a partir de diferentes pontos de vista. A História é disciplina que inclui, por meio de sua narrativa, indivíduos e grupos marginalizados social e politicamente no tempo. Por meio da História podemos aprender a desejar uma sociedade mais justa, democrática e realmente plural. Luís, parabéns pelo texto que auxilia a divulgação da história da Igreja e da Irmandade do Rosário de Laguna. Espero que você continue pesquisando, hoje na escola e amanhã na academia, outras histórias "sombreadas" ou esquecidas.
    (Thiago J. Sayão)

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    1. Obrigado pela visita Thiago e pela ajuda também, volte sempre que quiser! Desejo também sucesso para o seu projeto, Laguna Documenta.

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  2. Boa tarde!
    Como lagunense nata, admiro muito as histórias até então desconhecidas pela maioria dos lagunenses. Gosto muito de História, contos, lendas, etc... Laguna é rica nesses quesitos. Lá pra Ponta da Barra tem cada causo....
    Parabéns aos jovens lagunenses por tão vocacionada iniciativa.

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