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Foto: Elvis Palma | A tradição da pesca artesanal (Molhes da Barra)

20 de janeiro de 2015

20 - Festa de São Sebastião: a tradição da Barranceira

Chegada do padroeiro à comunidade da Barranceira em 20 de janeiro de 1987 (Elizabeth dos Santos Abreu / Arquivo Pessoal)
A religião é algo muito forte na Laguna, seja você católico, evangélico, judeu, espírita, etc... E mais uma vez passamos por esse tema, vem conhecer um pouco mais sobre a devoção dos moradores do bairro Barranceira à São Sebastião, mártir da Igreja Católica.

Vem Descobrir!
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Um caixeiro-viajante, vindo do Imaruhy (SC), por canoa a motor, rumo à Laguna, chegando ao porto da Barranceira, pediu pousada para a dona Alexandra André, pois era muito tarde para que pudesse seguir viagem.

Já com o dia amanhecendo, antes de prosseguir, para retribuir a sua estadia, o caixeiro quis pagar, mas a senhora recusou dizendo que não precisava. Foi então que ao ver na parede um pequeno santinho de papel com a imagem de São Sebastião, o trabalhador disse que mandaria vir do Rio de Janeiro (DF) um quadro do mártir católico para a senhora, no entanto ela não acreditava que realmente fosse vir.

Após quatro anos de construção e alguns testes bem sucedidos, em 1º de setembro de 1884, é inaugurada festivamente toda a malha ferroviária da The Donna Thereza Christina Railway, foi durante a festa que chegou a notícia de que se encontrava na agência dos correios local – a época situada no Porto da Laguna – uma encomenda vinda por navio do Rio de Janeiro, endereçada à Alexandra. A encomenda foi buscada por Manoel André, e, ao abrirem a encomenda viram que era o quadro de São Sebastião, que o caixeiro enviara como pagamento pela estadia.

Criou-se então a tradição. Dona Alexandra, passou a receber a noite em sua casa toda a comunidade para rezar a novena de São Sebastião, com uma exceção ao dia do padroeiro – 20 de janeiro – pois a missa se realizava às 10 horas... E assim continua até hoje.

Toda a devoção de Alexandra André passou para a sua filha, Marcelina, que assumiu a responsabilidade de dar seguimento à tradição da festa e da novena de São Sebastião. Passando de Marcelina para as novas gerações.


A primeira capela veio por precaução

Hoje em paz, as vizinhas Barranceira e Cabeçuda, travavam uma guerra na questão da religiosidade, o motivo: a Festa de São Sebastião crescia cada vez mais, enquanto a de São Pedro Apóstolo continuava pequena. A crescente festa continuava a ser realizada na residência de Marcelina André, o que serviu de pretexto para que a Cabeçuda começasse a pressionar o padre para que este tirasse a imagem e a festa do padroeiro da Barranceira, e levasse para o bairro vizinho.

Primeira capela da Barranceira
(Foto: Luís Claudio J. Abreu / arquivo do blog)
Como conta Loreni André, ao saber da movimentação, o filho de Marcelina, Pedro Libério disse: “minha mãe, se eles botarem a mão em São Sebastião, eu mato!”, e ela respondeu “meu filho, tu não precisa matar ninguém, por que se São Sebastião não quiser sair daqui, ninguém leva.”, com ele completando “mãe, se eles botarem a mão em São Sebastião, não chegam na estrada por que eu mato!”. Dona Marcelina, ficou muito preocupada, pois iriam vir buscar o quadro, que era mantido com tanto zelo por ela, assim como sua mãe também mantinha.  Após muitas pressões, o padre ordenou que a imagem de São Sebastião fosse levada para Cabeçuda.

E o dia chegou... Uma mulher chegou à casa de Marcelina, para buscar o quadro – mantido há mais de sessenta anos no bairro –, disse que estava autorizada pelo padre, a herdeira da tradição falou “se o padre autorizou... Pode leva-lo” e logo após caiu em lágrimas. A mulher, no entanto não conseguiu chegar perto do quadro, pois suas mãos ficaram trêmulas, e sem conseguir tirar ela foi embora, indo logo contar a história para o padre que se assustou. Para aqueles que sentiram falta do senhor Pedro Libério, no dia em que vieram buscar o quadro, ele encontrava-se trabalhando na roça.

Para garantir que São Sebastião não saísse do bairro e, que assim fosse mantida a tradição da Festa e da Novena, dona Marcelina, doou um terreno e, iniciou-se a arrecadação de donativos para a construção da primeira capela em honra ao padroeiro, recorda Liberina André, que os festeiros “foram de porta em porta pedindo doações”, indo até o município de Tubarão (SC). Em 1969, no dia do padroeiro, foi terminada toda a base da futura da capela, dando início a sua construção.

A Procissão

Procissão marítima, 1987.
(Elizabeth Abreu / Arquivo Pessoal)
Um dos marcos da Festa de São Sebastião – e até hoje muito lembrada – era a procissão feita pela Lagoa do Imaruí, no dia 20 de janeiro, as canoas usadas pelos pescadores do bairro eram todas enfeitadas, a mais bela de todas recebia o padroeiro. Nas canoas eram colocados fogos de artificio lançados do início ao fim do trajeto, toda a comunidade se reunia para ir nas canoas, ou para observar a beira da lagoa. “Os pescadores enfeitavam suas canos para receber São Sebastião”, conta Elizabeth Abreu, que ainda completa dizendo que era linda”a procissão  

O percurso iniciava no porto da antiga capela, seguia até Cabeçuda, recebido festivamente pela população, refazia o trajeto parando no porto do seo Adílio Ferreira, onde era calorosamente levado até a capela, em transladação acompanhada por crianças, adultos e idosos, moradores do bairro e de outras comunidades, todo o caminho era enfeitado com bandeirinhas

Com o tempo, apareceram algumas manchas na imagem de São Sebastião, o que levou ao fim do espetáculo, já que o salitre marítimo estava deteriorando a mesma. O roteiro foi modificado passou-se a realizar a procissão partindo da casa de fiéis.

Memórias

Nos tempos em que a energia elétrica ainda era sonho distante, acendiam-se uma fogueira para a realização da festa, o que se destacava no meio da escuridão, ficou marcado na memória de muitos que presenciaram essa época, o que deixou de ser realizado após a chegada da eletricidade.

Todo o dinheiro arrecadado na Festa era depositado por Pedro Libério, numa lata de leite em pó, que no ano seguinte era aberta. Com o dinheiro Dona Marcelina e ele, iam à busca dos melhores fogos de artificio disponíveis do mercado. Na festa, todos eles eram dispostos numa “roda de fogo” onde um atirava contra o outro, batendo num estandarte que conforme era atingido (e iluminado) fazia surgir a imagem do santo padroeiro.

Seo Pedro [Libério] judiava muito da gente”, diz Loreni ao lembrar-se dos tempos de criança, em que, assim como muitos outros da época, foi perseguido pela bombinha “buscapé”. A bombinha de pólvora quando atirada em direção às crianças, ia seguindo elas pelo rastro de vento deixado pela corrida em disparada... Mas a bombinha de mal, nada tinha, servia apenas para um susto...

Certa vez, quando a festa se realizava ainda na capela “redonda”, um dos foguetes usados na festa ao ser atirado saiu num raio de fumaça indo até a imagem de São Sebastião, foi então que o foguete se apagou num instante caindo atrás do quadro, sem dar chances para o perigo, como diz Liberina, “foi um milagre da imagem”.

As Imagens

O quadro
(Foto: Miriam Lopes)
A Barranceira, conserva atualmente duas imagens de São Sebastião, a original vinda, em 1884, do Rio de Janeiro, que fica exposta na igreja durante as festividades do mártir católico, saindo dela apenas na procissão, tendo sofrido já ações do salitre marítimo e sido restaurada; e uma réplica que fica na igreja durante o ano todo, exceto nas comemorações do padroeiro.

Há um tempo, foi feita uma estátua do padroeiro para substituir o quadro mantido com tanto zelo pela comunidade, mas o povo não conseguia sentir nele a mesma fé. Então, para que não fosse quebrada a tradição, a estatua foi guardada e o quadro voltou a ocupar seu espaço.

Palavras Soltas:

Oi! Tudo Bem? Primeiramente, com essa história começo a levar o rumo do blog, para outros locais da Laguna, que é a minha ideia desde o início, reunir histórias que ocorreram nos bairros que formam a cidade.

E o primeiro bairro que escolho é a Barranceira, onde moro. E trago de início, a devoção do bairro em seu padroeiro - São Sebastião, cuja história começa com minha tetravó, Alexandra André. 

A história do bairro Barranceira (assim como a de outros bairros lagunenses), não foi escrita, sua memória é transmitida de geração para geração, oralmente, todos os fatos aqui relatados, foram colhidos por mim ao longo dos anos em que eles foram relembrados nas missas da novena (que dura nove dias) e em conversas com moradores. Obrigado por ler até o fim.

Fontes e Referências

Entrevistas
ABREU, Elizabeth dos Santos. Entrevista concedida à Luís Claudio Joaquim Abreu em 22 de janeiro de 2014.
ANDRÉ, Liberina dos Santos. Entrevista concedida à Luís Claudio Joaquim Abreu em 22 de janeiro de 2014.
OLIVEIRA, Loreni André de. Entrevista concedida à Luís Claudio Joaquim Abreu em 05 de janeiro de 2015.

Periódicos
ABREU, Luís Claudio Joaquim. Festa de São Sebastião: a tradição da Barranceira. Jornal de Laguna. 16 jan. 2015.

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