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Foto: Elvis Palma | A tradição da pesca artesanal (Molhes da Barra)

13 de junho de 2014

18 - Santo Antônio dos Anjos: Devoção, festa, e um pouco mais

Sem legenda. (Foto: Elvis Palma)
Abro a primeira história de junho, com uma citação extraída de A Laguna de 1880 de Saul Ulysséa:
Santo Antônio era julgado o protetor dos casamentos. Muitas promessas lhes faziam os namorados, principalmente as moças, para que o santo lhes satisfizesse os desejos matrimoniais.                                     Algumas pessoas chegavam a ser barbaras nas suas pretensões amarrando a imagem com a corda até que ela satisfizesse seus desejos.                                                                                                                                      Alguns atavam-na a uma corda comprida e assim mergulhavam-na nos poços. Havia a crença que chegou aos tempos modernos, de que na casa em frente a qual parasse a imagem durante a sua procissão, ali se efetivaria casamento naquele ano. 
Uma das festas mais esperadas do calendário lagunense, pelo menos, pelas moças, a Festa de Santo Antônio, completa este ano, 338 anos, iniciada em 1676, quando por Domingos de Brito Peixoto, a póvoa de Laguna foi fundada.

A Fundação de Laguna: o início da devoção

Com a missão de conquistar as terras da Laguna de los Patos, chega àquelas terra o bandeirante vicentista Domingos de Brito Peixoto, acompanhado de seus filhos Francisco e Sebastião e de mais alguns tripulantes, isto em 1676¹, eles já haviam tentado a expedição por terra dois anos antes, sem sucesso, mais agora por mar conseguem, e dão início a fundação da nova terra.

Existia uma "regra", dedicar ao santo do dia - segundo o calendário da Igreja Católica -, a terra descoberta e a povoação iniciada, são exemplos: Nossa Senhora do Desterro, São Sebastião do Rio de Janeiro, São Luís do Paraitinga... 

Porém Domingos, dedicou a nova terra à seu santo de devoção que era Santo Antônio de Pádua...
 - porém se o Santo era de Pádua, porquê dos Anjos? 
 - Opa! Falo mais a frente, tudo bem?

... e logo deu início, à construção de uma capelinha, onde colocou uma imagem que ele havia trazido consigo, para que a população pudesse fazer suas orações ao padroeiro da cidade

Erguida a igreja, fundada a Irmandade e surge na areia, uma imagem

Igreja Matriz, fim dos anos 1800
(acervo Dalmo M. Faísca / Reprodução Imagens de Laguna)

Foi no fim do século XVII e início do século XVIII, que a Laguna, começa a receber os imigrantes açorianos, a essa altura, já tínhamos o aspecto de vila, com casinhas de taipa e pilão e uma capela, que começa à ter ao seu redor uma igreja sendo construída isso em 1696, começa também as trezenas que duram de 1º à 13 de junho (dia do santo).

A essa altura, Domingos, já um homem com sua idade e expedições nas costas, retorna à São Vicente, onde vive os últimos anos de sua vida, e seu filho o bandeirante Francisco de Brito Peixoto, na casa dos seus 40 ou 50 anos, volta para a vila de Santo Antônio dos Anjos da Laguna, e fica ali vendo o progresso da vila fundada por seu pai.

Em 1733, Francisco, vivendo somente das rendas vindas de suas terras em Tramandaí na província de São Pedro do Rio Grande, tem diversos pedidos negados pela Coroa portuguesa, e passa a viver recluso na vila onde mora desde 1714, é esquecido pela Coroa a quem tanto ele e seu pai fizeram benefícios. No dia 31 de outubro de 1735, acompanhado de sua sobrinha Ana Brito, e do padre vigário da Matriz, Luís Álvares, Francisco lhe suplica o último desejo, ser enterrado sobre os pés da Igreja de Santo Antônio dos Anjos, construída por seu pai, e que para ele representava "O sentido da existência de sua estirpe de bandeirante". O desejo foi atendido, e Francisco, foi enterrado no altar-mor da Igreja, esquecido pela Coroa portuguesa.

Em estilo toscano, é terminada a conclusão da Igreja Matriz (na época Paroquial) e foi ainda na década de 1700, que em 1753, é fundada a Irmandade do Santíssimo Sacramento e Santo Antônio dos Anjos da Laguna, porém oficialmente terminou sua formação em 1815, segundo seus livros que estão no Arquivo do Tombo da Matriz.
Santo Antônio das Areias
(Reprodução/Baú do Marega)

Nesse meio tempo, é encontrada numa caixa de madeira, trazida das águas e repousando nas areias de uma praia na Laguna, uma imagem primitiva de Santo Antônio que recebe agora o nome "das Areias" e que substitui a imagem deixada por Domingos, com o tempo a imagem sofreu diversos desgastamentos causados também pelo tempo que ficou no mar, para isso a Irmandade, que também era responsável por ajudar na realização da trezena de Santo Antônio, decide comprar para compor as imagens da Matriz, em 1792, em reunião decide a Irmandade adquirir na província do Rio de Janeiro, uma nova imagem de madeira de Santo Antônio, já dois anos após em 5 de janeiro, pelo pagamento de 115$200 réis, é contratada por cunho artístico diversas pinturas, além do douramento do altar e do sacrário.

Ainda em 1792, é enviada para a província baiana, um tronco de madeira da nossa região, onde um santeiro esculpe em 1,68 metros, uma imagem do nosso padroeiro, e a envia para Laguna, onde esta é entronizada no seu altar em 1796, lugar em que está até hoje, aliás já deve estar recebendo fieis, hoje é dia do nosso padroeiro.
A igreja mais bela do Brasil inteiro, para nós do mundo... E nosso padroeiro ao centro rodeada de puro ouro...
(Foto: Waldemar Anacleto (in memorian) / acervo UFSC)

Continua: Imagens, Torres, e unas cosita a mas

Santo Antônio dos Anjos, fora muito venerado pelos lagunenses e lagunistas, principalmente os tropeiros que partiam do Rio Grande pra cá e de cá pra lá, atraía também diversos fieis de outras partes do Brasil.

E foi assim que iniciou, o século XIX, vale lembrar que este é o século que é mais lembrado na nossa história pelo fato do nascimento de Anita Garibaldi e também da efêmera República Catharinense, bom, voltando, em 1803, é concluída as obras da capela-mor da igreja, porém esta foi batizada à água-benta dois anos antes em 2 de junho. Em 1807, é inciada as obras de douramento de todo o altar-mor

Infelizmente com o desaparecimento dos livros que vão de 1807 a 1894, conforme Alice Bertoli fica difícil de se contar a história, porém sem problemas, o resgate deve continuar. 

As trezenas se realizavam religiosamente todo ano, e não pararam nem mesmo durante as obras em que a Igreja recebeu duas torres, desfazendo o seu estilo toscano, em 1894.

O primeiro registro de um "juiz" de uma festa de Santo Antônio vem do século XIX, é dona Páscoa Gonçalves Ribeiro, não sabe-se a data, já em junho de 1858, segundo registros de Robert Ave-Lallemant, era rezada a trezena já com a orquestração. Segundo Antônio C. Marega, "no principio do século XX, era rezada uma missa solene (cantada) e procissão, logo apos um leilão das prendas recolhidas no comércio". Já em 1904, pela primeira vez, um casal de "juízes" não é casado, na época a tarefa era de decorar a igreja para receber os fieis.

Rua Raulino Horn, durante a procissão  de Santo Antônio. 
Anos 20 (reprodução/Jairo Viana)
Em 1905, lagunenses protestavam, pela primeira vez, não houve a tradicional festa, já no ano seguinte para evitar que a tradição não ocorra, um grupo de moças torna-se responsável pela organização da festa, durante o biênio 1907-08 dois pares foram festeiros e a partir de 1909 até 1966, somente um casal era responsável. Já no ano de 1967 pela primeira vez foram três pares e a desde então o número foi aumentando sempre de acordo com a necessidade e crescimento da festa, até se estabilizar em sete casais de festeiros atualmente.

Só depois de 1912, é que começam as quermesses ou como foram chamadas por tradição popular "as barraquinhas", hoje em dia, talvez a mais tradicional seja a da cocada, como muitos falam.

Nos anos 40, é fundado o tradicional Coral de Santo Antônio dos Anjos, para alegrar ainda mais a festa.

Nos anos 70, começa as tradições das lembrancinhas com a distribuição de cartões-postais da festa, após então começa as lembrancinhas, teve um ano que elas foram fabricadas no México.

Até hoje Santo Antônio tem um poder, claro além de conceder o matrimônio às solteiras, ele traz de volto à Laguna, àqueles que saem de sua terrinha para conquistar o mundo.

O menino Jesus nos braços de Toninho

Menino Jesus. 2005 (foto: Marcio J. Rodrigues)
O menino Jesus, que nosso padroeiro segura vem desde a imagem de Domingos de Brito, segundo Alice Bertoli, todo ano o menino Jesus é despido e vestido com uma nova roupinha confeccionada por
uma senhora ou uma moça em pagamento de promessa. Todas as roupinhas são guardas no acervo paroquial.

A roupa que aparece na imagem ao lado (de 2005), é feito com "renda de crivo", e foi confeccionado pela professora Mércia Barzan (informação do doutor Márcio).

As imagens e o "enterro" de Santo Antônio

Somente três imagens foram usadas para a festa e para a veneração dos devotos. A primeira é a trazida por Domingos de Brito, a segunda é a "das areias" e a terceira é a imagem baiana.

A primeira imagem, certa vez, segundo registros históricos, foi enterrada próxima a porta da antiga capela, e como pagamento de promessa de Dona Ana Ribeiro, pelo reaparecimento de seu escravo, ela foi exumada, e Dona Ana, queria levar a imagem para fora da Laguna, merece este fato uma história separada, em breve.

A segunda imagem, até hoje é usada para substituição da imagem baiana, quando esta sai em procissão ou se dirige para outras igrejas.

Já a baiana, já tem mais de duzentos anos, e até hoje é visitada por milhares de devotos, e realiza muitos milagres - diga-se muitos mesmo -.

O único santo que ri e o porquê do "dos Anjos"

É desconhecida a data de fundação da nossa cidade, segundo o historiador Oswaldo Rodrigues Cabral, teria sido 2 de outubro, que segundo a igreja, é o dia dos Anjos da Guarda, e por isso, Santo Antônio da Laguna, recebeu o acréscimo dos Anjos.

Porém, só pelo nome se confere uma personalidade diferente ao nosso padroeiro que se disfere de Santo Antônio de Pádua (ou de Lisboa), por causa que a medida em que você se aproxima da imagem que tem 1,67 metros de altura, ela com seus "olhos arregalados", vai lhe dando um leve sorrisinho, que não há em nenhuma outra imagem sacra, então sim, nosso padroeiro tem a personalidade própria, um diferencial do nosso "Toninho" como ele é por muitos carinhosamente chamado.

A biografia do padroeiro (por Marega)

Fernando de Bulhões, nasceu a 15 de agosto de 1195, em Lisboa, filho de Dom Martinho de Bulhões e de Dona Maria Teresa Taveira.

Desde criança já demonstrava seu caráter e sua vocação para participar dos serviços para caridade. Jovem, inconformado com a vida fútil que levava, ingressou na Ordem dos Cônegos Regulares, em Lisboa. \s amigos sempre o visitavam não permitindo momentos de reflexão e fé.  Para ter um ambiente de calma, para meditação e oração, transfere-se para Coimbra, completou seus estudos e foi ordenado sacerdote, da Ordem Agostiniana. Entusiasmado pelo martírio de cinco freis franciscanos, na África, resolve mudar de Ordem. Com a licença concedida, troca de ordem religiosa, agora na Ordem Franciscana é Frei Antônio, juntou-se aos frades franciscanos de Portugal, enviados para Marrocos, no trabalho apostólico de conversão dos infiéis.

Partiu Frei Antônio para sua missão, mas, uma enfermidade fez com que voltasse a sua pátria, porém  o navio em que viajava , foi atingido por uma grande tempestade que o levou para a Itália, aportando na Sicília.

Frei Antônio revela-se um grande orador, conhecedor das Sagradas Escrituras e da Teologia, de tal maneira que a pregação tornou-se seu principal atributo vocacional. Em suas viagens pela Itália e França, seus sermões foram marcantes ao defender a vida exemplar e ao condenar as heresias, o que lhe deu o título de “Martelo dos Hereges”.

Suas pregações foram contínuas até a sua morte, o que ocorreu no dia 13 de junho de 1231, então com 36 anos. Era tão grande a sua fama de pregador caridoso e milagroso, que o fez o “Santo” mais rápido da história da Igreja Católica, sabedoras de sua morte, as crianças saíram gritando pelas ruas, de Pádua “morreu o Santo Antônio !”. Sepultado em Pádua, onde foi construída uma Basílica, transformada em grande centro de peregrinação, sua canonização ocorreu dez meses depois de sua morte, em 1232. Tornou-se o mais popular dos santos da Igreja Católica.
Encontro com Santo Antônio, tela de Fernando Martins

Hino ao padroeiro

Santo Antonio de Pádua Glorioso
Sorridente no trono do altar
Ensinai-nos no mundo vaidoso
As loucuras tão vais desprezar

Santo Antonio que as coisas perdidas
Com responso fazeis encontrar
E aos mortais que perderam as vidas
Oh fazei-os a graça voltar

Em palavras fizestes vibrante
Um sermão aos peixinhos do mar
Concedei que saibamos constante
os sermões de Jesus praticar

Aos hereges fizestes
Com a presença da hóstia na mão
E também junto a corte celeste
O adoremos num só coração

Considerações Finais

Peço desculpas por resumir aqui um pouco de Toninho, um pouco da Matriz e um pouco da festa, é claro que cada um merece a sua história separada, mas porém, é necessário intercala-las pois sem um não haveria o outro, futuramente também, a história do enterro e exumação de Santo Antônio, pode isso? 

Enfim, obrigado pela visita, e volte sempre, a casa é sua, e a história é nossa.

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Referências

    Livros
    • ARNS, Alice Bertoli. Uma epopeia esquecida de bandeirantes e franciscanos. 2ª Edição. Curitiba: 1975.
      • COMPROMISSO DA IRMANDADE DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO E SANTO ANTÔNIO DOS ANJOS DA LAGUNA. Laguna: Igreja Parochial de Santo Antônio dos Anjos. 1953 (Apud Bertoli, 1975)
    Periódicos e Revistas
    • JORNAL O ALBOR. Edição 2482. Ano 52. Bi-centenário da Irmandade do SS. Sacramento e Santo Antônio dos Anjos.
    Base Eletrônica de Dados
    • Antônio Carlos Marega. O Baú do Marega. Santo Antônio dos Anjos e a Laguna. Disponível Aqui.
    • Mariana Alcântara. Hoje é dia de Santo Antônio dos Anjos .Disponível Aqui

    2 comentários:

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