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Foto: Elvis Palma | A tradição da pesca artesanal (Molhes da Barra)

20 de novembro de 2013

14 - Chamem os detetives: O Juiz Collaço desapareceu

O Juiz Collaço sumiu... a população desinformada fazia surgir boatos...mais enfim o que aconteceu?
Sepultura da família Collaço (Reprodução / Wikipédia)


AVISO: Na época, não havia em Laguna, imprensa pra documentar os fatos, os dados aqui apresentados foram extraídos do livro 'Laguna: Memória Histórica' de Ruben Ulysséa.

A cidade acorda, com a notícia do crime
No inverno de 1821, a manhã da Laguna, iniciou-se, calma...não, iniciou-se calma, até que surgiu a notícia de que o queridíssimo juiz ordinário da cidade, Luiz Martins Collaço, havia desaparecido, pelos cantos da cidade, comentava-se que o juiz foi assassinado, outros comentavam que o juiz havia saído em viagem para Desterro (atual Florianópolis) conforme anunciara para amigos dias antes, sabemos que quem espalho a "fofoca" do assassinato do juiz Collaço, foi José Antônio Tavares e seu irmão Manoel, havia até "grupos de discussão" que se formou nas portas das vendas e bares das cidade e assim, a manhã de terça-feira, ninguém andava nas ruas molhadas pela chuva da noite anterior, pois estavam à incorporar, o espírito curioso e se tornarem detetives. Os suspeitos dados pelos "detetives boateiros" seriam os Franças, que possuíam um rixa com o juiz, a família França, claro negava tudo, e ainda punha em dúvida a notícia espalhada.

Os parentes se preocupam
Conforme saiu o boato de que Luís Collaço, havia ido para Desterro, Maria Francisca Nunes, sua esposa, tratou de dizer que ele não havia ido, pois ninguém partiria para uma viagem sem se despedir da família, enquanto isso, ia se aglomerando mais gente na casa da família na Rua da Praia¹, Dona Maria, ainda disse que depois de jantarem e da mesa ser retirada, pouco antes das nove horas da noite, convidou o marido à ir deitar-se, porém ele disse que iria arrumar as malas, para sua viagem à Desterro, então desceu às escadas, com a roupa que estava, colocou seu capote "camelão" e dirigiu-se para a Rua da Praia, um escravo viu o juiz sair de casa, e viu o mesmo, colocar sob a cabeça um capote de barregana, para se proteger da chuva, a esposa desesperada, ficou a noite em claro esperando o marido voltar, porém, este não voltou, e então começou a desconfiar de que o juiz, estava a traindo com uma moça solteira que morava na Rua Direita.

A Família França se esquiva das acusações
O dia inteiro, a família França, foi acusada de ter armado o sumiço do juiz Collaço, a família França era dona da firma 'França & Irmão', uma casa comercial no centro que era proprietário de lanchões que faziam transporte na lagoa Santo Antônio, a firma dava dor de cabeça ao juiz, pois ele dizia que a firma era irregular, isso foi  o estopim para começar a suspeita. Collaço, havia enviado, ao governador da capitania, uma representação que dizia que a firma fazia cobranças ilegais aos seus clientes, o que ainda agravará as suspeitas, porém os Franças, tinham um álibi ao seu favor, dos cinco irmãos que eram os donos da firma, quatro estavam fora da cidade e o que aqui ficou, estava enfermo 

Chega até nós um índio paraguaio
Há uns dias antes do assassinato do juiz, havia chegado nestas terras um índio paraguaio chamado Romão Rixal, e que trazia um recado aos Franças um recado do irmão Francisco França, de que terminassem o serviço que o mesmo já tinha começado.
Francisco França, retornou à Laguna, no dia 22 de agosto, e foi informado do ocorrido, e sofreu um chuva de acusações, tratou então de se reunir com amigos, pra discutir o caso, afim de manter seu prestígio na vila, então começou a dizer que o suspeito era o índio paraguaio que trabalhava na área do embarque da firma do mesmo, só que o novo juiz da Laguna, mandou prender o tentente-coronel Francisco França, e o mesmo foi submetido à interrogatório.

Extra! O índio confessa e o corpo é localizado!
No dia 23, Romão Rixal, foi preso e levado para ser interrogado, eis que então, com a língua arreastada, por ser um bêbado "assumido" confessou o crime, apesar de misturar as línguas Guarany, Português e Castelhano, disse que o juiz ao andar caiu numa "trampa" e foi assassinado, ao ser submetido à mais perguntas, ele explicou como assassinou o juiz, primeiro golpeou-o no pescoço, colocou o corpo num fardo, e o levou com ajuda de um caixeiro chamado Piedade, para uma canoa que estava nas proximidades da casa da família Tavares, e assim saíram pelo mar agitado pelo vento sul e sob a chuva que caia, contornaram o morro e jogaram o corpo na água. 
Souberam então que o caixeiro Piedade fugiu da vila, entretanto Romão Rixal, foi conduzido até o morro para que indicasse onde estava o corpo, e depois de andanças apontou para um redemoinho onde acreditava ter jogado o corpo, o novo juiz-de-terra da cidade, mandou vir embarcações com redes afim de "pescar" o corpo do juiz, sem sucesso as buscas foram paralisadas e retomadas no dia seguinte sem sucesso, e a população indignada começou a acusar novamente os Franças.
Mais de sessenta pessoas participavam das buscas, até que então, um dos Tavares, propôs que recorressem à uma velha superstição, que sempre dava certo nesses casos, colocaram uma vela de cera benta acesa sob uma gamela, e colocarem a gamela nas águas do morro, então, observou-se que a gamela com a chama milagrosa, se dirigia até um redemoinho, no outro dia pescadores logo no amanhecer do dia, acharam o fardo com o corpo, no local onde a gamela indicava, e então retornaram à terra-firme pra avisar a população sobre o fato, porém a surpresa, o fardo, possuía o selo "França & Irmão", entre acusações e palavras, o juiz José Francisco Coelho e o cirurgião-mor Manuel Joaquim Barbosa realizaram o exame de corpo de delito ali mesmo na frente de todos.

Rixal se suicida e surgem pontos de interrogação, a cerca do corpo
Porém, ao retirar o corpo do fardo, percebeu-se que o corpo não possuía mau-cheiro, que partes da roupa estavam enxutas, não parecia que o corpo estava na água à cinco dias, até que então um dos Tavares, disse que os Franças são amigos do Barbosa, e ele é um dos matadores do juiz Collaço, Manuel J. Barbosa, defendia-se nervoso dizendo que José Antônio Tavares é o culpado, dias antes o juiz chamará ele de ladrão, então formou-se um verdadeiro combate, de um lado formou-se o grupo que defendia o cirurgião Barbosa, que era uma pessoa solícita, e do outro os que exigiam sua prisão (a maioria), então cedendo a pressão, o juiz Coelho, prendeu Barbosa em nome d'El Rei e o levou pro quartel  da guarnição, porém, a população soube que o índio Romão se suicidou na prisão do quartel, encontrado no dia 24, caído no chão de tijolos, e que havia deixado informação contraditória uma vez que disse que "golpeou o juiz no pescoço" e no entanto o corpo apresentava "uma arranhadura na ponta do nariz que ainda vertia sangue" e nada mais, mais voltando ao suicídio de Rixal, todo mundo aceitou a versão do suicídio exceto os que eram contra os Franças que contestavam o ocorrido, aliás os Franças fugiram da cidade, no dia seguinte, foi preso o cunhado de Barbosa, João de Medina, acusado de ser cúmplice do assassinato, ainda formou-se motim de arruaceiros que andavam por toda cidade gritando contra os acusados.

Piedade é preso, governo intervém
Tropas do governo chegam a Laguna, pra colocar ordem na cidade, dias depois o caixeiro Joaquim José da Piedade é preso, e interrogado, porém as declarações dadas não batem com as dadas pelo índio Rixal, que disse que ele e Piedade haviam realizado o crime sozinhos, porém Piedade, incluía outros cúmplices no crime bárbaro cometido.

O Caso se arrastaria até 1823

O Caso é julgado
Em 1823, dois anos após o crime bárbaro, o crime foi julgado em grau de recurso pelo Conselho Supremo de Justiça do Rio de Janeiro, e a sentença proferida em 14 de agosto de 1823...

- Enfim, terminou o caso do Juiz Collaço? Só isso?
- Não

A Verdade sobre o assassinato do Juiz Collaço
Na noite de 20 de agosto de 1821, Francisco de Souza França estava em Desterros, os outros irmãos em propriedades do interior, Piedade, ofereceu-se para mostrar ao Juiz Collaço, documentos que poderiam incriminar os Franças, Collaço, aceitou a proposta e assim saiu de sua casa, e chegou no sobrado onde moravam os Franças, e subiu as escadas, e com a luz de uma vela começou a examinar aqueles documentos, porém quando estava mexendo nos livros e documentos, foi amordaçado e imobilizado por Rixal, Piedade, José França e João de Medina e foi ferido na carótida por uma lanceta manejada pelo cirurgião-mor Manuel Barbosa, que era amigo íntimo dos Franças.

Dobraram o corpo do juiz, colocaram num fardo, e ordenaram que Rixal e Piedade, amarrassem pedras e lançassem o corpo nas águas.

Rixal e Piedade, não cumpriram as ordens, mais de fato, jogaram o fardo nas águas conforme dito anteriormente

A Sentença do caso
Transcrevo trechos do texto de Lucas A. Boiteux, citado por Ruben Ulysséa em texto na publicação "Centenário da Comarca de Laguna", republicado nos livros, 'Laguna: memória histórica' e 'Laguna, um pouco do passado), a grafia foi atualizada. 

Vendo-se neste Conselho, o Processo verbal dos réus, o capitão José de Souza França, o tenente-coronel Francisco da Silva França, o tenente João de Souza França, o tenente Domingos de Souza França, o cirurgião-mor Manuel Joaquim Barbosa, Auto do corpo de delito, devassa, e mais papéis apensos. Mostra-se que são os mesmos réus arguidos de serem perpetradores, e cúmplices da morte do Juiz Ordinário da Vila de Laguna, Luís Martins Collaço; o qual tendo sido introduzido na casa de um dos réus,  o capitão José de Souza França, a instâncias, e a atraiçoado da indução de um caixeiro deste Joaquim José da Piedade, fora ali assassinado; depois levado, e lançado ao mar, pelo mesmo, e um Índio Romão, e lançado ao mar pelo mesmo (...) o (...) Juiz Ordinário, tendo sido morto e lançado ao mar no dia vinte de agosto, como se declara, ou supõem-se não poderá aparecer intacto e incorrupto, e sem o menor sinal de podridão depois de cinco dias d'estar depositado na água (...).

Resta dizer que Lucas A. Boiteux, em suas pesquisas, descobriu, que o tenente-coronel Francisco da Silva França regressou à Laguna, pobre e recebido com desgosto pelo povo, posteriormente mudou-se pra Desterro, onde faleceu com 80 anos.

Referências
Publicações
*MARKUN, Paulo. Anita Garibaldi: uma heroína brasileira. 6ª edição. São Paulo. Editora SENAC. 2009
*ULYSSÉA, Ruben. Laguna: memóriahHistórica. 1ª edição. Brasília. Editora Letra Ativa. 2004. 310p.

2 comentários:

  1. Que trama em Luís!
    Parabéns por mais uma história!

    Prof Andrea

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    Respostas
    1. Obrigado pelos elogios, professora Andréa, é uma trama boa pra um filme de Hollywood né?

      Obrigado pela visita, volte sempre!

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